Médica, líder e empoderada – Um bate-papo com Maira Caleffi

No 14º andar do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, a voz da secretária ao chamar cada paciente quebra o silêncio. Um misto de nervosismo e ansiedade toma conta de quem aguarda o atendimento. Naquele espaço, com uma vista privilegiada do Guaíba, muitas mulheres enfrentam a rotina do tratamento do câncer de mama. O local foi o cenário da entrevista do Geração DUX com a médica Maira Caleffi, Chefe do Serviço de Mastologia e coordenadora do Núcleo da Mama Moinhos do HMV e diretora fundadora do Instituto da Mama do Rio Grande do Sul (IMAMA) – primeira instituição de saúde do país a receber a qualificação de Oscip (organização da sociedade civil de interesse público) – e da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA). Uma das frentes de trabalho da instituição é pressionar a Câmara dos Deputados para a aprovação da Lei dos 30 Dias, que diminuirá para um mês o tempo máximo para que uma pessoa com qualquer tipo de câncer tenha acesso ao início do tratamento.

Maira Caleffi é formada em Medicina pela PUCRS e Bioquímica pela UFRGS. Antes de ingressar na universidade via seu futuro em laboratórios, mas acolheu a sugestão do pai e decidiu prestar vestibular também para medicina, como uma garantia. Passou em ambos e cursou os dois.  “Meu pai foi muito sábio por ter dito isso”, admite. Após a graduação, a primeira médica da família continuou os estudos fora do pais. A primeira parada foi em Londres, onde obteve o título de doutora em Mastologia na Universidade de Londres. No pós-doutorado, realizado na Universidade de Vanderbilt, nos Estados Unidos, dedicou-se a pesquisa de laboratório em biologia molecular.

“Eu não desisto, eu tenho muita resiliência. Eu desisto quando é uma coisa que não vai dar em nada.  Desisto se me convenço que aquilo não vale a pena. Mas se eu estou convencida que vale eu não desisto (…) E um pouco dessa minha postura disciplinada é do balé. Acho que as bailarinas que andam por aí, ou que já estudaram, sabem do que eu estou falando. Isso te dá também uma vida mais saudável”.

Foi após uma sessão de fotos para a campanha do Outubro Rosa, que teve nesse domingo sua 16ª Caminhada das Vitoriosas, que  Maira nos recebeu para compartilhar essa e outras lembranças. Confira a seguir os principais trechos desse bate-papo.

A trajetória na sociedade civil organizada

Foi em um congresso internacional em 1992 que o caminho de Maira Caleffi como liderança social começou a ser desenhado. Ao perceber que havia uma ligação entre a queda da mortalidade pela doença nos Estados Unidos e a visibilidade que a ex primeira-dama Nancy Reagan havia dado ao tema ao assumir publicamente o câncer, ela entendeu o papel crucial das campanhas de prevenção.

“Quando o Imama nasceu em 1993 a ideia era apoio ao paciente, fazer com que tivesse um ambiente para ser acolhido, mas não chegava o que a gente fazia porque os pacientes passavam por tantas dificuldades durante o seu enfrentamento da doença, o diagnóstico e o tratamento (…)  Então a gente começou a entender que nós tínhamos que fazer ações para transformar e impactar a realidade da mulher com câncer de mama. Nós começamos com educação na comunidade, educação nas escolas, conscientização”.

Advocacy

“Quando percebemos que somente a educação não era mais o suficiente e que as mulheres não encontravam atendimento depois de ter todas as informações a respeito da doença, começamos a fazer advocacy.  Fui até a American Cancer Society buscar instrumentos e um aprendizado de advocacy que não existia no país. Entender como a sociedade civil poderia impactar na questão pública, propor leis e fiscalizar leis, fazer parceria com os gestores públicos. Nós tivemos mais ou menos dois anos de grande treinamento e capacitação de todo o voluntariado do IMAMA. Foi quando, em 2006, fundei a FEMAMA, que tem hoje 71 associados em 18 estados, mais o Distrito Federal, e trabalha só em advocacy”.

O conhecimento que empodera

“Sempre me preocupei em ter uma formação brilhante e intocável, e continuar estudando muito.  Estou envolvida com a área de educação, com nossos residentes,  com orientação de pesquisas de mestrado e doutorado e continuo publicando.  Do contrário não me sinto empoderada para fazer o que eu faço. (…)  Eu opero, eu cuido, eu tenho um banco de dados dos últimos 15 anos de 1,7 mil  pacientes que eu operei. (…) Porque não adianta fazer tudo que eu faço se eu tivesse minhas pacientes morrendo.

O poder do engajamento social

“Essa ideia de sociedade civil organizada é super necessária para que as pessoas entendam que elas podem ser agentes de transformação também na área da saúde (…). Por que o povo vota pelo que, quando  vota consciente? Vota pela saúde e pela educação. Só que são exatamente as duas áreas que são alvos de cortes e de subfinanciamento. Então, se a gente não fizer com que esses líderes assumam esse papel quem é que vai  fazer voluntariamente? Uns 2%, uns 3%? Isso tem que acabar! Porque se a gente não parar de pensar no próprio umbigo o Brasil não vai mudar”.

Inspiração

“Paciente. As pacientes me inspiram. Ver que ela está viva há 20 anos, que ela conseguiu ter um filho. É muito dolorido porque a gente não ganha sempre, é muito dolorido.  As que não conseguem superar o câncer também me inspiram. A medicina me inspira, eu não poderia ser quem eu sou sem ser a médica que eu sou”.

 

Crédito das imagens: IMAMA/Divulgação

 

 

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