Texto dos duxers Camila Cunha, Caroline Veleda, Fernanda Saraiva e Luiza Ferreira.

A 14ª edição do Fronteiras do Pensamento recebeu, na noite do dia 4 de novembro, o escritor e professor franco-congolês Alain Mabanckou. Em sua conferência, o autor, ganhador de diversos prêmios literários e um dos mais renomados nomes da literatura francesa contemporânea, versou sobre o seu livro O soluço do homem negro. Na obra, o autor enfatiza a experiência que teve em três continentes: Africano, Europeu e Americano. A obra, assim como sua palestra, é um convite aos indivíduos da África negra e demais descendentes da negritude, para refletirem sobre si, sua identidade, cultura e, até suas verdades. O livro ainda destaca a compreensão do existencialismo negro, ou seja, a definição do humano longe de dogmas e/ou imposições a uma forma de ser livre em pensamento e no modo de ver o mundo. Sobre o livro, Mabanckou relatou ter recebido muitos retornos dos seus jovens leitores devido à identificação e reconhecimento que os mesmos expuseram sentir ao longo da leitura. Entretanto, o autor também notou interpretações equivocadas de seu escrito em plataformas digitais.

Durante a sua fala, Mabanckou buscou desmistificar a crença de que o povo negro teria somente uma história, uma cultura. Sua história pessoal seria um exemplo disso, um homem que nasceu no Congo, estudou em Paris e trabalha nos EUA, trajetória diversa de muitas outras que não podem ser homogeneizadas.

Alain Mabanckou ainda instigou à reflexão ao afirmar que são os “outros” que criam os “grupos”, sejam esses os negros, judeus ou outros. Assim, se reforça a construção de uma narrativa única para grupos diversos. Torna-se mais premente, então, o suplício do autor de que se busque e se estude as diversas culturas africanas que a história não fez questão de visibilizar. Com base nessa perspectiva, o livro e a fala de Alain Mabanckou convidam os indivíduos a conhecerem o presente, não necessariamente apenas como um resultado do passado, mas como uma possibilidade. Afinal, o presente um dia será o passado e esse não precisa ser de dor. Durante sua explanação, muitos foram os autores e intelectuais citados, destaque para Frantz Fanon, que se envolveu intensamente na luta pela independência da Argélia com excelentes contribuições acerca do existencialismo negro, citado no início da conferência.

O autor alertou que a promoção do Brasil para o exterior, por certas vezes, prioriza o claro ao invés do escuro, mas que a nova geração de brasileiros está mudando a visibilidade global do país e a exportação da sua cultura por meio do trabalho realizado por pessoas negras nas áreas da literatura, por exemplo.

Alain Mabanckou apontou a importância do reconhecimento da identidade e da história das pessoas negras no Brasil, inclusive como parte do conteúdo obrigatório nas escolas, a fim de que brancos e negros compreendam as origens multicoloridas do país e das pessoas, para que todas as cores estejam em harmonia, assim como acontece em um arco-íris.

Ao final de sua potente explanação e questionado sobre o primeiro passo para a reinvenção do humano, o autor incentivou que busquemos o que temos em comum e que enfatizemos o que nos une, minimizando o que nos difere.