Texto dos duxers Fernanda Saraiva, Rafael Albuquerque e Willian de Ávila.

A noite de 28 de outubro de 2020 ficou marcada pela brilhante palestra de Sir Paul Collier no Fronteiras do Pensamento, que, nesta edição, debate sobre a “Reinvenção do Humano”. Professor de economia e políticas públicas na Blavatnik School of Government e St Antony’s College, em Oxford, e diretor do Centro de Crescimento Internacional, Collier atuou como conselheiro sênior da Comissão Blair para a África e foi diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Banco Mundial.

Nesta conferência, o renomado professor, escritor e economista britânico abordou temas, como: capitalismo, democracia, biologia evolutiva, liderança e propósito, todos com a naturalidade e autoridade de quem já fez muito pela economia mundial. O pensador trouxe importantes conceitos e provocações, sem expor ideologias e gostos, detendo-se na proposição de soluções para os atuais problemas econômicos

Segundo Collier, só o capitalismo é capaz de retirar as pessoas da pobreza, mas para isso não deve ser utilizado associado à ganância ou ser dependente de um único líder. O capitalismo do século XXI deve procurar modelos descentralizados, de compartilhamento de poder e responsabilidades entre os indivíduos.

Collier também explicou que o único sistema político sustentável e aderente ao capitalismo é a democracia, mas ambos “saíram dos trilhos” nos últimos trinta ou quarenta anos. O capitalismo e a democracia não funcionam de forma automática, precisam de uma intervenção sociopolítica com foco na reciprocidade, esta que é uma das características mais marcantes do debate econômico atual. Collier é defensor e um dos principais entusiastas do modelo capitalista de Adam Smith, mas também admite a necessidade do intervencionismo, não como sugerido pelo modelo Keynesiano, mas uma intervenção que garanta, a inovação e o dinamismo, que são, pelas palavras de Collier, “o combustível do capitalismo”.

A razão pela qual ainda não alcançamos um melhor ritmo de desenvolvimento global, se deve a polarização entre Estado e Indivíduo. De acordo com conferencista, o indivíduo foi se tornando avarento e individualista, visualizando no Estado a imagem de provedor. Tal fato o impede de assumir uma postura protagonista, parte ativa do desenvolvimento social.

Collier também apontou que somos seres que buscamos o pertencimento, desejamos estar ligados a comunidades e temos capacidade imaginativa. A potência desses elementos pode resultar em exemplos como o da Nova Zelândia no combate à Covid-19. Nesse sentido, a Primeira-ministra, Jacinda Ardern, manifestou-se publicamente afirmando que o país formava um time de 5 bilhões de pessoas contra o vírus, reforçando, assim, a ideia de união e compromisso coletivo.

A conquista de tal união, no entanto, exige um exercício sofisticado de empatia. Para que possamos auxiliar o outro a modificar o seu ponto de vista, é fundamental entendermos a origem das suas ideias, a fim de que haja uma divergência construtiva nesse processo. Nesses casos, há uma linha tênue, sendo necessário o cuidado para não desejar convencer o outro na tentativa de dominá-lo.

O papel social das organizações foi o último ponto abordado pelo professor. Para ele, uma empresa deve definir de forma clara o seu propósito e saber comunicá-lo e vivenciá-lo no dia a dia, para que haja engajamento real dos seus colaboradores. Os objetivos de um colaborador não se limitam aos resultados financeiros da organização e à ampliação do seu valor para sócios e acionistas. A natureza humana anseia por mais e a nossa sociedade percebe isso muito presente, como uma nova forma de atuação que não permite que as empresas regridam a tempos ainda menos sustentáveis.